Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, até a década de 1960, o Brasil era um país de maioria rural. No entanto, nas últimas décadas, temos notado uma verdadeira virada. Em 2015, a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD), feita pelo IBGE, já mostrava que cerca de 85% dos brasileiros viviam em áreas urbanas e apenas 15% em áreas rurais.
Porém, o processo de urbanização no Brasil tem sido feito de forma desenfreada, sem nenhum planejamento, impactando diretamente a natureza e, como consequência, a qualidade da drenagem urbana dos municípios.
Durante esse processo, a camada vegetal-natural do local é removida e substituída por uma área urbana impermeabilizada, seja um loteamento, condomínio ou construção similar. Esse movimento causa impactos significativos para as cidades: piora na qualidade de vida da população, aumento de inundações, piora na qualidade da água e aumento da presença de materiais sólidos no escoamento pluvial.
Em uma área não urbanizada, apenas 20% da água da chuva vai ser escoada superficialmente. Já em uma área urbanizada, esse número vai para incríveis 90%.
Principais agravantes
Além da falta de planejamento, podemos destacar como principais culpados a falta de controle do uso do solo, as ocupações em áreas de risco e os sistemas de drenagem inadequados.
Duas características do processo de urbanização brasileiro se destacam como principais motivadores do problema. Em primeiro lugar, os projetos de drenagem no país são guiados pela filosofia de escoar a água precipitada o mais rápido possível para a jusante. A partir do momento que uma quantidade grande de água é jogada para um manancial, aquele local não aguenta o aumento repentino e acaba gerando uma inundação.
Dessa forma, novos manuais de drenagem urbana, como os de Goiás e Paraná, já chegam com a orientação de não agravar esse processo, buscando não lançar mais água do que já é lançado naturalmente. Assim, os projetos devem prever a captação, retenção e infiltração das águas pluviais.
A segunda característica que agrava o problema no país vem de um processo histórico da criação das cidades brasileiras: a ocupação de áreas ribeirinhas. Essas regiões são utilizadas pelos rios como zonas de passagem durante períodos de inundação. Com a construção de casas e aterros nesses locais, a capacidade de escoamento é reduzida.
Medidas de controle
Para combater o impacto da urbanização nos sistemas de drenagem dos municípios, é necessário adotar princípios de controle de enchentes. O primeiro ponto é que o aumento da vazão não deve ser transferido para a jusante — a prioridade deve ser na recuperação da infiltração natural da bacia, reduzindo os impactos ambientais.
Para isso, também é necessário que os impactos sejam analisados levando em conta a bacia hidrográfica e não os limites de municípios. No caso das legislações municipais, o horizonte de avaliação deve contemplar futuras ocupações urbanas.
Em relação às zonas ribeirinhas, as novas ocupações só devem ser permitidas a partir de um zoneamento que contemple as condições de enchentes, fora das áreas de proteção permanente e das cotas de inundação.
Por fim, as medidas de controle devem ser não-estruturais, ou seja, de pequeno porte, como um lago em solo com leito de infiltração.